

O climatério representa a transição fisiológica natural da vida reprodutiva para a não reprodutiva e é marcada pela redução gradual dos níveis de estrogênio
Quando se fala em menopausa, os fogachos ainda são o sintoma mais lembrado. Mas o climatério envolve uma série de mudanças no corpo e na mente da mulher que vão muito além das ondas de calor e que nem sempre são associadas à queda dos hormônios.
O climatério representa a transição fisiológica natural da vida reprodutiva para a não reprodutiva e é marcado pela redução gradual dos níveis de estrogênio. Segundo estimativa do IBGE, aproximadamente 30 milhões de mulheres no Brasil estão vivendo na faixa etária do climatério e menopausa, ou seja, 7,9% da população feminina.
De alterações musculoesqueléticas a impactos no cérebro, cada vez mais os especialistas têm chamado atenção para os efeitos menos conhecidos desse período.
"O estrogênio tem ação no cérebro, nos vasos sanguíneos, nos músculos, nas articulações, nos tendões e até na forma como o corpo regula inflamação e dor. Por isso, além das ondas de calor, muitas mulheres passam a perceber dores articulares e musculares, rigidez, piora de desempenho físico, aumento de sensibilidade à dor e queixas cognitivas", detalha Patricia Magier, ginecologista.
A redução do estrogênio afeta diretamente músculos, tendões e articulações. Um exemplo é a capsulite adesiva, conhecida como "ombro congelado", mais comum em mulheres entre 40 e 60 anos.
A condição provoca dor e limitação de movimentos e tem sido cada vez mais associada à menopausa. Além do ombro, dores, rigidez matinal e piora de quadros inflamatórios articulares também podem surgir ou se intensificar nessa fase.
"Os músculos e articulações também têm receptores de estrogênio e a falta desse hormônio pode levar a sintomas nesses órgãos, assim como em todos os outros órgãos do corpo. A síndrome do ombro congelado é muito confundida com tendinite, bursite e outras questões articulares que são mais comuns. É difícil fazer esse diagnóstico preciso. Basicamente, o diagnóstico é confirmado quando não existe nenhuma outra causa identificada e a mulher melhora do sintoma com a reposição hormonal", explica Igor Padovesi, ginecologista, autor do livro 'Menopausa Sem Medo'.
O climatério também pode provocar mudanças estruturais e funcionais no cérebro. Segundo os profissionais ouvidos pela reportagem, alterações temporárias em áreas ligadas à memória, atenção e processamento de informações podem ocorrer, ajudando a explicar queixas comuns como "névoa mental", lapsos de memória e dificuldade de concentração.
Especialistas ressaltam que essas mudanças não significam perda cognitiva permanente, mas uma adaptação do cérebro à nova realidade hormonal.
As oscilações hormonais também impactam os neurotransmissores ligados ao bem-estar. Irritabilidade, ansiedade, tristeza e maior vulnerabilidade emocional são queixas frequentes de muitas mulheres durante o climatério.
A queda do estrogênio pode ainda interferir no sono, o que agrava alterações de humor e sensação de cansaço constante.
"Oscilações de humor podem ocorrer por instabilidade hormonal e por privação de sono, mas quando há tristeza persistente na maior parte dos dias por semanas, há perda de prazer, apatia, isolamento, alterações importantes de apetite e energia, queda de produtividade, crises de ansiedade recorrentes, ou qualquer pensamento de autoagressão, isso ultrapassa o esperado e precisa de avaliação clínica completa", detalha Magier.
Embora os fogachos noturnos sejam um fator conhecido, especialistas apontam que a menopausa pode afetar o sono de forma mais ampla. Despertares frequentes, sono superficial e sensação de não ter descansado o suficiente são comuns, mesmo na ausência de ondas de calor intensas.
Essas alterações impactam diretamente a disposição, o humor e o desempenho cognitivo ao longo do dia.
"Dormir mal tem várias consequências para o organismo, isso é muito bem conhecido, independente da causa. E o período do climatério é, para muitas mulheres, muito crítico em relação a isso, por piorar muito a qualidade do sono. Isso tem a ver com a queixa de cansaço que as mulheres podem apresentar, alterações de memória, que são muito comuns, por vezes não são só pela alteração hormonal em si, elas vêm também por conta do sono pior. E também, por último, os sintomas do humor, de ansiedade, irritabilidade, os sintomas depressivos também se agravam quando o sono é ruim", diz Padovesi.
A perda acelerada de massa óssea é um dos efeitos mais conhecidos, mas muitas vezes silenciosos, do climatério. A diminuição do estrogênio favorece a osteopenia e a osteoporose, aumentando o risco de fraturas mesmo em quedas leves.
Por isso, especialistas recomendam atenção à ingestão de cálcio, vitamina D e à prática de exercícios de força. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 50% das mulheres com 50 anos ou mais sofrerão uma fratura osteoporótica.
O avanço das terapias hormonais é um reforço importante e um dos tratamentos mais eficazes durante essa fase da vida. Com efeito preventivo, a terapia hormonal ajuda a proteger contra a perda óssea e, consequentemente, diminui o risco de fraturas e internações médicas.
Quando feita no período correto, ela também é favorável do ponto de vista cardiovascular, pois o estrogênio, mesmo antes da menopausa, protege os vasos sanguíneos, regula o colesterol e possui efeitos anti-inflamatórios.
"A reposição ainda ajuda a aliviar de forma significativa os sintomas que impactam diretamente a qualidade de vida das mulheres, como ondas de calor e suor excessivo, principalmente à noite, distúrbios do sono, secura vaginal e desconforto nas relações sexuais, alterações de humor e instabilidade emocional, dores musculares e articulares, falta de energia e cansaço persistente", acrescenta Thalita Domenich, ginecologista e obstetra especialista da Libbs Farmacêutica.
Alguns hábitos simples no dia a dia podem amenizar os sintomas e fazer diferença no conforto e na qualidade de vida. Veja alguns deles:
Alimentação saudável: aumente o consumo de frutas, legumes e verduras com alta porcentagem de água como melão, melancia, pepino ou alface, isso ajuda a manter o corpo hidratado e o metabolismo equilibrado. “Também é importante reduzir o consumo de alimentos muito picantes, refeições pesadas, excesso de cafeína ou álcool, que podem prejudicar o conforto térmico e dificultar a hidratação”, diz Domenich.
Hidratação: o suor e as ondas de calor podem favorecer tanto a desidratação quanto a retenção de líquidos. Ter sempre às mãos uma garrafa de água pode ajudar a manter a ingestão adequada.
Exercícios físicos: dê preferência para fazer as atividades logo pela manhã ou à noite, quando o calor está mais ameno. Evite exposição ao sol e ao calor intenso nos demais períodos do dia.
Saúde mental: O aumento da temperatura pode intensificar irritabilidade, ansiedade e oscilações de humor comuns na menopausa. Atividades suaves como meditação ou exercícios de respiração ajudam a aliviar o estresse e trazem mais equilíbrio emocional.
Sono: Mantenha o quarto arejado. Abra janelas, use ventilador ou ar-condicionado para refrescar o ambiente. Roupas de cama leves e um banho fresco antes de dormir também apodem ajudar a diminuir o suor noturno e garantir um sono mais tranquilo.